Era costume entre os judeus que os homens santos
buscassem ermos para meditar. Esses períodos de solidão, marcados pelo contacto
mais íntimo com a Natureza e por frugal alimentação, quase em jejum permanente,
ensejavam um despertamento de forças espirituais que faziam deles verdadeiros
taumaturgos, dotados de grande força moral e notáveis poderes psíquicos.
Observando a tradição, logo após seu encontro
com João, o Batista, às margens do rio Jordão, Jesus internou-se no deserto,
onde permaneceu quarenta dias. Enfraquecido e faminto foi visitado pelo demônio
que lhe disse:
"Se és Filho de Deus, ordena que estas
pedras se tornem pães."
Jesus lhe respondeu: "Está escrito: Não só
de pão vive o Homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus."
O diabo o transportou a Jerusalém e, colocando-o
no pináculo do Templo, disse-lhe:
"Se és Filho de Deus, lança-te daqui
abaixo, pois está escrito que ele ordenou a seus anjos tenham cuidado contigo e
te sustentem nas mãos para não tropeçares em alguma pedra."
Jesus replicou: "Também está escrito:
"Não tentarás o Senhor, teu Deus."
O diabo o transportou ainda a um monte muito
alto, donde lhe mostrou todos os reinos do Mundo com sua glória e lhe disse:
"Dar-te-ei tudo isto se, prosternando-te,
me adorares."
Ordenou-lhe Jesus: "Afasta-te, Satanás,
pois está escrito: "Ao Senhor, teu Deus, adorarás, e só a ele
servirás."
A narrativa evangélica termina com a informação
de que o demônio retirou-se e vieram os anjos para servir a Jesus.
Não obstante a singularidade do diálogo, com
inteligentes citações do Velho Testamento encaixadas nas respostas de Jesus,
devemos tomá-lo quando muito à conta de uma alegoria, porquanto a firua do
demônio, como a personificação do Mal, a força imutável que se contrapõe ao
interesses de Deus, é mera ficção religiosa.
Segundo os teólogos medievais, os demônios foram
anjos que pecaram antes da criação de Adão e tiveram por castigo o inferno.
Ali, ao que parece, instalaram-se como soberanos do Mal, divertindo-se em
torturar as criaturas humanas que se deixaram seduzir, na Terra, por suas
sugestões malignas.
Embora as afirmativas frequentes de figuras
representativas da ortodoxia religiosa quanto à sua existência, o diabo é hoje
encarado pela vasta maioria dos fiéis como mera figuração mitológica. Para os
teólogos isto seria uma trama do próprio demônio - convencer os homens de sua
inexistência a fim de mais facilmente envolvê-los.
Todavia, deve-se essa descrença muito mais às
fantasias com que cercaram a figura do diabo, ao longo dos séculos, chegando-se,
inclusive, à elaboração de desenhos grotescos sobre a sua aparência. Para a
mentalidade racional do presente tais idéias afiguram-se ridículas e infantis.
Revela a Doutrina Espírita a existência de
Espíritos profundamente comprometidos com o vício e o crime, seres enfermos
que, por estranho desvio, inspirados na rebeldia sistemática, se comprazem em
perseguir e prejudicar os homens. Longe estão, entretanto, de representarem um
poder constituído, imutável em suas intenções, capaz de ameaçar a ordem
universal, porquanto eles próprios estão regidos por Leis Divinas que trabalham
incessantemente suas consciência, impelindo-os inexoravelmente à renovação.
O demônio, por isso, será todo filho de Deus
transviado do Bem, mas sua destinação final, irresistível, contrariando até
mesmo a mais forte disposição em contrário, é a angelitude. Longo e penoso
caminho espera aqueles que tentam negar sua condição de filhos de Deus, marcado
por milenárias lutas e sofrimentos, em expiações redentoras, e mais cedo ou mais
tarde terão de trilhá-lo, porque esta é a vontade soberana do Criador, que
jamais falha em seus propósitos.
Tão fantasiosa quanto a existência do diabo é a
idéia de que teria tentado Jesus. Inteligente como o descrevem, saberia que
ninguém por ser impelido ao Mal senão pelo mal que guarda em seu próprio
coração. Se é a oportunidade que faz o ladrão, como proclama o velho ditado,
devemos considerar que somente o ladrão a enxerga, inspirado por velhas
tendências ao roubo.
Se deixarmos um pacote de notas sobre uma mesa,
em lugar público, muitas pessoas passarão por ali indiferentes ao dinheiro. Mas
aquele que estime apropriar-se de bens alheios logo pensará numa forma de
aproximar-se sorrateiramente e levar as notas.
Partindo desse princípio, conclui-se que Jesus
jamais poderia ser tentado por perspectivas de poder e riqueza. Espírito puro e
perfeito Ele situava-se acima dos interesses e das paixões que empolgam a
Humanidade.
Podemos, pois, considerar esta passagem
evangélica como apócrifa, uma interpolação, algo que não aconteceu. Quando
muito se trata de uma alegoria apresentada por Jesus e interpretada pelos
evangelistas como episódio autêntico.
De qualquer forma, observada a mesma lei de
afinidade que estabelece a ligação do homem mau com a oportunidade de
praticá-lo, é sempre bom saber que se pretendemos a condição de discípulos de
Jesus é preciso que cultivemos pureza e virtude. Caso contrário, nossa comunhão
com Ele será tão impossível quanto o episódio da tentação.
Autor:
Richard Simonetti
Artigo
publicado na Revista Reformador, Setembro de 1978, páginas 300-301.
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