"O evangelho, em sua expressão total, é um vasto caminho ascensional, cujo fim não poderemos atingir, legitimamente, sem o conhecimento e a aplicação de todos os detalhes. ... A mensagem do Cristo precisa ser conhecida, meditada, sentida e vivida."


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Livro Renúncia
2ª Parte - cap. III - Testemunhos de fé



Confronto

Então, Jesus foi conduzido pelo espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo.

Mateus 4:1

            Nas antigas simbologias que marcavam a forma de entendimento e expressão do conjunto de idéias que se faziam da trajetória humana na busca da unidade com Deus, através do florescimento em nós da semente por Ele depositada, o deserto assinalava a moradia daquele que representava a dissensão e a divisão. Tudo quanto não edifica em direção à união e ao progresso esfacela-se gradativamente até atingir o estado de pó em que a vastidão improdutiva e estéril de areia e pedra encontra legítima expressão.

            No conjunto das crenças populares, também encontraremos essa assertiva no dito que assinala a mente vazia e ociosa como morada de tudo quanto se interpõe aos desígnios Divinos de amar e agir incessantemente na direção do bem.

            A figura do Cristo, simbolizando o modelo para todos os que estagiam na Terra ansiando pela luz em si mesmos, dirigida, pela intuição, aos lugares ermos para facear com as forças antagônicas ao seu ministério, representa momento de crucial importância a marcar a vida de todos nós.

            O mundo muitas vezes, pelos seus imperativos e condicionamentos, delimita nosso campo de reflexão, ocultando de nós mesmos a visão clara do que somos e em direção a quê nossos impulsos nos movem.

            Dirigidos ao país do eu profundo, onde as manifestações exteriores se calam para ceder espaço unicamente às notas que marcam a harmonia ou desarmonia do que somos, defrontaremos invariavelmente com o conjunto de nossos atavismos primitivos a nos incitar a permanecer na zona de inércia, atrasando nosso progresso. Esse confronto não se reveste do véu da facilidade, porquanto exigirá sempre alta dose de auto reflexão, auto-crítica e fé, nem sempre encontradas em nossa bagagem por vezes repletas de objetos e quinquilharias que se mostram agradáveis aos olhos, mas não representam fonte de iluminação verdadeira.

            Essa a razão porque larga parcela da humanidade permanece alheia a essa empreitada, preferindo iludir-se quanto à necessidade de confrontar-se consigo mesma, permanecendo nas águas mornas da convivência e da apatia até que, ouvindo o apelo da intuição, seja arrastada pelo decreto da dor.

            O exemplo do Cristo nos convida a não adiar o encontro com nossa consciência, a fim de que, fortalecidos pela compreensão do que somos e de nosso papel na teia da vida, possamos agir em conformidade com a verdade que liberta e com o amor que constrói.

            Lembremos sempre que, por mais terríveis que sejam os inimigos que carregamos dentro de nós, eles permanecerão inalterados se não nos dispusermos a enfrentá-los decididamente movidos pelo firme propósito de crescer e progredir.

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